Por
Adriano Pereira1
A
música “Pra não dizer que não falei de flores” que inclui a primeira citação do
título deste texto é do cantor e compositor Geraldo Vandré e foi composta no
ano de 1968. Esse ano foi marcado por diversos acontecimentos tanto no Brasil quanto
no mundo. Foi um ano que marcou a história mundial em todos os seus aspectos, sendo
que depois de 1968 o mundo nunca mais seria o mesmo.
No Brasil, foi imposto o A I-5 e houve o surgimento
de movimentos como a Tropicália, etc.
A
canção foi composta em plena ditadura militar , quando o governo Médici prendia
, torturava e exilava muitas pessoas.
Havia
a censura no teatro, na TV, no cinema, na música e até nas universidades, o que
impossibilitava a germinação de uma cultura crítica. Por esses motivos, surgiu
naquela época uma efervescência de movimentos contrários à ditadura. É nesse
cenário que a música entrou como um importante objeto de protesto utilizado nas
passeatas pelos diversos grupos de manifestantes.
“Pra
não dizer que não falei de flores”, também conhecida por “Caminhando”, foi a vice-campeã
do 2º Festival Internacional da Canção e foi considerada um hino contra ditadura
por ser uma afronta direta ao governo e à tortura a que alguns eram submetidos
pelos militares.
Em
seus versos, Vandré cita a luta armada e a imobilidade das pessoas que
defendiam a diplomacia, critica os movimentos que pregavam “paz e amor”, mostrando
que de nada adiantava “falar de flores” àqueles que atacam com armas. Por esse motivo,
a canção foi proibida e Geraldo Vandré teve que ir para a Europa e durante anos
foi completamente esquecido pelo público.
Em
tempos de espinho é imprescindível falar de flores,
almejá-las, apreciá-las, na tentativa de equilibrar êxitos com dissabores,
claro que no prevalecimento daqueles sobre estes.
Quanto
às armas cada um empunha as suas em conformidade com sua intencionalidade, seus
predicativos, suas ideologias...
Parafraseando
subtextualmente Drummond o qual em linhas gerais cita que não sejamos poetas de
um mundo caduco, tampouco cantemos um mundo futuro, é preciso que vivenciemos o
hoje e aqui. Neste sentido é necessário se acrescentar que a vivência hodierna deve
constituir-se num devir contínuo e não num retrocesso, seja no plano dos
objetivos, seja nas conquistas que não devem estar fadadas ao atraso, mas ao
progresso.
Não
temamos o exílio, tampouco as armas. No âmago de um desbravador a luta sempre
vale a pena desde que justa, séria, equitativa e honesta.
Que
as nossas armas sejam os nossos ideais de justiça e união...
Que
o nosso exílio seja algo inconcebível, pois exilar-se é de alguma forma
refugiar-se, alienar-se...
Que
a nossa CONJUNTURA seja CLASSISTA para que formemos uma
identidade e a partir desta identidade formada possamos ser dignamente
respeitados na plenitude cidadã mantendo o equilíbrio entre direitos adquiridos
e deveres a seguir...
Que
a nossa causa seja SUPRAPARTIDÁRIA, pois partidarismos são
unilateralismos, geram extremismos e reduz o foco de visão e atuação...
E,
sobretudo, que a nossa política seja a POLÍTICA EDUCACIONAL, imparcial,
focada, voltada ao crescimento e à qualidade do ensino e da valorização doa
agentes envolvidos em prol da consolidação de uma cidadania equitativa.
Pois
bem, assiste-se no atual cenário do nosso município a uma tentativa
retrocedente de subtração de direitos devidamente conquistados pelo Magistério.
É
preciso que as autoridades tomem a educação enquanto um patrimônio indelével
e que os direitos auferidos constituam-se enquanto causas pétreas, não
vulneráveis a Atos Institucionais (analogamente ao período de ostracismo e
opressão da recente história brasileira).
Educação
é além de tudo que se possa falar um processo de transposição didática de
conhecimentos e de reflexões. Neste sentido é de elevada periculosidade a
transposição de dissabores, frustações, redução da cidadania. Será este o
modelo transposição que devem nortear as ações governamentais, a política
pública e a práxis pedagógica? Acredito que não! E, neste sentido é
proveitoso enfatizar que somos reflexos do que vivenciamos. Portanto,
subtração de direitos, gera subtração de qualidade educacional.
Educação
é acima de tudo uma soma. Soma de melhorias,
ampliação de oportunidades, satisfação e crescimento profissional. Na
contramão da acenada subtração é preciso pensarmos numa expansão de
valorização, para que esta chegue a todos que a almejam...
Mudando
de cenário, seria mais conveniente, aplicável e necessário promovermos um fórum
de debates, encaminhamentos e pactos com foco no crescimento da carreira, numa
perspectiva holística e humanística em prol do verdadeiro do sentido da educação
que é projetar, consolidar e crescer, assim, urge que arrolemos alguns
questionamentos sugestivos:
· Por
que não discutirmos a nossa Política Pública Municipal, formarmos um pacto pela
educação de qualidade num planejamento decenal como já se preveem o PME (Plano
Municipal de Educação) em consonância com o PNE (Plano Nacional de Educação)? –
Um município que não para a fim de discutir e efetivar a sua política pública
com foco no crescimento assim como uma escola que não reflete colegiadamente a
sua proposta pedagógica estão fadados ao fracasso, ao automatismo, ao
condicionamento behaviorista e à alienação política em amplo sentido. Não
forma, não transforma e assim, também não progride...
É preciso sabermos quem
somos, onde estamos e pra onde vamos, mas numa perspectiva valorativa,
consensual, equitativa, pertinente e, sobretudo qualitativa.
· Por
que não discutirmos o futuro do nosso Instituto de Previdência (IPCF) que se
encontra fadado a reiterados parcelamentos a longa data? – A
sustentabilidade é uma bandeira necessária emergente no cenário pós-moderno.
Caso destoemos deste princípio em primazia de projetos de descontinuidades
estaremos com nosso futuro comprometido e este fundo de aposentadoria vem sendo
alvo de onerações históricas por parte de vários gestores.
· Por
que não implementarmos uma política de valorização da tríade: ENSINO, PESQUISA
E EXTENSÃO a ser delineada na formação docente e discente enquanto agentes
pesquisadores e criadores de conhecimento e retorno social? – A
tríade mencionada além de promover um salto qualitativo, trará como benefícios
também o desenvolvimento das nossas comunidades em cenário nacional, quiçá,
internacional.
· Por
que não discutirmos uma CAMPANHA SALARIAL DIGNA? – Não
existe a valorização, a qualificação (em sentido múltiplo), tampouco um retorno
social de excelência quando os profissionais que constituem esta carreira
sentem-se detentores de atividades laborais sub-empregatícias no plano
salarial. Ser educador não deve ser considerado enquanto mera ocupação,
emprego, trabalho, tampouco subemprego. Há
que se pensar numa carreira justa que não prescinde da recepção de salários
dignos. Educação não é despesa. É investimento...
· Por
que não se discutir o destravamento do auxílio para os educadores que estão
sendo formados pelo programa Plataforma Freire, que é necessário haja vista a
despesa dos mesmos para deslocamento, estadia e alimentação? – É
muito difícil sentir-se valorizado numa via de doação sem recepção.
· Por
que não avivarmos a discussão e celeridade acerca da eleição para gestores
escolares já enunciada na Lei Orgânica Municipal desde 1990 e contemplada no
texto da Lei 08/2011 (Plano de Cargos, Carreira e Remuneração do Magistério
Público Municipal)? – Governos que pensem numa Gestão em Rede
com fundamento holístico, buscam desvincular-se da política de donativos de
cunho clientelista e patrimonialista e almejam descentralizar o processo
gerencial. Sejamos este governo!
Poderíamos
passar horas e até dias a discutir o que temos, o que queremos e o que é
viável, porém não se almeja o desvio do foco das atenções que esta epístola
objetiva e assim restrinjamos o que aqui se pretende por esta missiva.
Onde
há fumaça, sinaliza-se incêndio e neste caso a coivara é imensa.
Mais de 400 professores citados no objeto de uma sindicância da Secretaria de
Educação deste Município é o objeto de motivação aqui delineado. Sindicância
esta feita à revelia do conhecimento das partes envolvidas, ferindo o princípio
da PUBLICIDADE, sinalizando a possibilidade de subtrair enquadramentos
(alteração de carga horária de 20 para 40h), regularizações e remoções.
Fica
um questionamento: se há reivindicadores que merecidamente sinalizam o
sentimento de injustiça por não terem sidos contemplados com estes benefícios
e, se estes reivindicadores representam apenas 6 pessoas cujas todas considero merecedoras,
diga-se de passagem, por que não buscar uma alternativa para
contemplá-los ao invés de num profundo contrassenso sinalizar o comprometimento
vital dos demais envolvidos? Por que não então se promover a celeridade
no processo de municipalização das 3 escolas de ensino que passarão da
competência do estado para Campo Formoso? Tendo em vista serem escolas das séries finais do Ensino
Fundamental, o que por turma já comtempla quase totalmente a necessidade de
aulas de um professor de 40 horas já resolveria o problema com grandes sobras
de vagas.
Robin
Hood está vivo? Está equivocado? Justiça Classista se faz tirando os direitos
de uns em proveito de outros ou promovendo a extensão destes a todos que assim
os merecerem? Caso esteja errado preciso rever os meus conceitos de
classismo, cidadania e política educacional.
É
preciso sairmos do plano verbal das falácias, do propagandismo, dos vazios, do
documentalismo (letra morta) e da política de opressão e papel.
Caso
contrário, insisto em dizer, configurar-se-á um movimento que transita entre o retrocesso
e a paralisia
da nossa carreira...
Volto
também a dizer que direito classista tem que ser cláusula pétrea no
sentido de não redutivismo e a carreira de professor tem que ser mais bem
respeitada.
Atos
deletérios ou redutivistas para o professor são também atos suicidas por parte
de quem se interessa plenamente pela educação, se este for o caso, e homicidas
para com o retorno social.
A
título de registro e ao contrário do que se vem propagando à boca miúda, direitos que ferem em redução para alguns, mas que em
letra de lei possam ser estendidos a todos, o que não é o caso em tese, não
podem ser tomados enquanto direitos individuais, haja vista a possibilidade da
extensão a maiores contingentes.
Neste
cenário é necessário desvincularmos de pseudo-projeções de poder, de atitudes
narcisistas, pois tudo e todos passam e o que nos resta enquanto patrimônio
profissional é a nossa CARREIRA.
CONHECIMENTO é
um elemento de suma importância e não deve ser objeto narcisista, ostentador de
vaidade e sectarismos alienantes. Acima deste está a SABEDORIA. Conhecimento é
matéria-bruta, arma de alto poder destrutivo na mão de quem dele faz mau uso.
Sabedoria é matéria aperfeiçoada. Convertamos conhecimento em sabedoria, em
primazia do crescimento classista.
A
materialização dos anseios desta classe não deve ser moldada pelo alienante
estigma da nulidade da própria classe num processo auto-predatório de canibalismo
social massificado.
“Quem
sabe faz a hora e não espera acontecer.” Façamos a nossa hora sem os canhões,
sem a falácia, sem as generalizações... Plantemos flores...
Fica a reflexão, as perspectivas e o anseio de
extinção da vulnerabilidade cidadã...
Campo
Formoso, Bahia, Terra das Esmeraldas, das Grutas, do Sisal, dos Minérios e, quiçá,
da Emancipação do Magistério, 10 de Maio de 2013.
Atenciosamente,
Prof.
Adriano Pereira.
1 Professor da Rede
Municipal de Ensino de Campo Formoso desde 2002.

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