sexta-feira, 10 de maio de 2013

“QUEM SABE FAZ A HORA, NÃO ESPERA ACONTECER”: APONTAMENTOS ACERCA DO MAGISTÉRIO PÚBLICO MUNICIPAL CAMPOFORMOSENSE NUM DUALÍSTICO CENÁRIO DE PERSPECTIVAS E VULNERABILIDADES.


Por Adriano Pereira1



A música “Pra não dizer que não falei de flores” que inclui a primeira citação do título deste texto é do cantor e compositor Geraldo Vandré e foi composta no ano de 1968. Esse ano foi marcado por diversos acontecimentos tanto no Brasil quanto no mundo. Foi um ano que marcou a história mundial em todos os seus aspectos, sendo que depois de 1968 o mundo nunca mais seria o mesmo.

No Brasil, foi imposto o A I-5 e houve o surgimento de movimentos como a Tropicália, etc.

A canção foi composta em plena ditadura militar , quando o governo Médici prendia , torturava e exilava muitas pessoas.

Havia a censura no teatro, na TV, no cinema, na música e até nas universidades, o que impossibilitava a germinação de uma cultura crítica. Por esses motivos, surgiu naquela época uma efervescência de movimentos contrários à ditadura. É nesse cenário que a música entrou como um importante objeto de protesto utilizado nas passeatas pelos diversos grupos de manifestantes.

“Pra não dizer que não falei de flores”, também conhecida por “Caminhando”, foi a vice-campeã do 2º Festival Internacional da Canção e foi considerada um hino contra ditadura por ser uma afronta direta ao governo e à tortura a que alguns eram submetidos pelos militares.

Em seus versos, Vandré cita a luta armada e a imobilidade das pessoas que defendiam a diplomacia, critica os movimentos que pregavam “paz e amor”, mostrando que de nada adiantava “falar de flores” àqueles que atacam com armas. Por esse motivo, a canção foi proibida e Geraldo Vandré teve que ir para a Europa e durante anos foi completamente esquecido pelo público.

Em tempos de espinho é imprescindível falar de flores, almejá-las, apreciá-las, na tentativa de equilibrar êxitos com dissabores, claro que no prevalecimento daqueles sobre estes.

Quanto às armas cada um empunha as suas em conformidade com sua intencionalidade, seus predicativos, suas ideologias...

Parafraseando subtextualmente Drummond o qual em linhas gerais cita que não sejamos poetas de um mundo caduco, tampouco cantemos um mundo futuro, é preciso que vivenciemos o hoje e aqui. Neste sentido é necessário se acrescentar que a vivência hodierna deve constituir-se num devir contínuo e não num retrocesso, seja no plano dos objetivos, seja nas conquistas que não devem estar fadadas ao atraso, mas ao progresso.

Não temamos o exílio, tampouco as armas. No âmago de um desbravador a luta sempre vale a pena desde que justa, séria, equitativa e honesta.

Que as nossas armas sejam os nossos ideais de justiça e união...

Que o nosso exílio seja algo inconcebível, pois exilar-se é de alguma forma refugiar-se, alienar-se...
Que a nossa CONJUNTURA seja CLASSISTA para que formemos uma identidade e a partir desta identidade formada possamos ser dignamente respeitados na plenitude cidadã mantendo o equilíbrio entre direitos adquiridos e deveres a seguir...

Que a nossa causa seja SUPRAPARTIDÁRIA, pois partidarismos são unilateralismos, geram extremismos e reduz o foco de visão e atuação...

E, sobretudo, que a nossa política seja a POLÍTICA EDUCACIONAL, imparcial, focada, voltada ao crescimento e à qualidade do ensino e da valorização doa agentes envolvidos em prol da consolidação de uma cidadania equitativa.

Pois bem, assiste-se no atual cenário do nosso município a uma tentativa retrocedente de subtração de direitos devidamente conquistados pelo Magistério. É preciso que as autoridades tomem a educação enquanto um patrimônio indelével e que os direitos auferidos constituam-se enquanto causas pétreas, não vulneráveis a Atos Institucionais (analogamente ao período de ostracismo e opressão da recente história brasileira).

Educação é além de tudo que se possa falar um processo de transposição didática de conhecimentos e de reflexões. Neste sentido é de elevada periculosidade a transposição de dissabores, frustações, redução da cidadania. Será este o modelo transposição que devem nortear as ações governamentais, a política pública e a práxis pedagógica? Acredito que não! E, neste sentido é proveitoso enfatizar que somos reflexos do que vivenciamos. Portanto, subtração de direitos, gera subtração de qualidade educacional.

Educação é acima de tudo uma soma. Soma de melhorias, ampliação de oportunidades, satisfação e crescimento profissional. Na contramão da acenada subtração é preciso pensarmos numa expansão de valorização, para que esta chegue a todos que a almejam...

Mudando de cenário, seria mais conveniente, aplicável e necessário promovermos um fórum de debates, encaminhamentos e pactos com foco no crescimento da carreira, numa perspectiva holística e humanística em prol do verdadeiro do sentido da educação que é projetar, consolidar e crescer, assim, urge que arrolemos alguns questionamentos sugestivos:

·   Por que não discutirmos a nossa Política Pública Municipal, formarmos um pacto pela educação de qualidade num planejamento decenal como já se preveem o PME (Plano Municipal de Educação) em consonância com o PNE (Plano Nacional de Educação)? – Um município que não para a fim de discutir e efetivar a sua política pública com foco no crescimento assim como uma escola que não reflete colegiadamente a sua proposta pedagógica estão fadados ao fracasso, ao automatismo, ao condicionamento behaviorista e à alienação política em amplo sentido. Não forma, não transforma e assim, também não progride...

É preciso sabermos quem somos, onde estamos e pra onde vamos, mas numa perspectiva valorativa, consensual, equitativa, pertinente e, sobretudo qualitativa.

·    Por que não discutirmos o futuro do nosso Instituto de Previdência (IPCF) que se encontra fadado a reiterados parcelamentos a longa data? – A sustentabilidade é uma bandeira necessária emergente no cenário pós-moderno. Caso destoemos deste princípio em primazia de projetos de descontinuidades estaremos com nosso futuro comprometido e este fundo de aposentadoria vem sendo alvo de onerações históricas por parte de vários gestores.

·  Por que não implementarmos uma política de valorização da tríade: ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO a ser delineada na formação docente e discente enquanto agentes pesquisadores e criadores de conhecimento e retorno social? – A tríade mencionada além de promover um salto qualitativo, trará como benefícios também o desenvolvimento das nossas comunidades em cenário nacional, quiçá, internacional.

·    Por que não discutirmos uma CAMPANHA SALARIAL DIGNA? – Não existe a valorização, a qualificação (em sentido múltiplo), tampouco um retorno social de excelência quando os profissionais que constituem esta carreira sentem-se detentores de atividades laborais sub-empregatícias no plano salarial. Ser educador não deve ser considerado enquanto mera ocupação, emprego, trabalho, tampouco subemprego. Há que se pensar numa carreira justa que não prescinde da recepção de salários dignos. Educação não é despesa. É investimento...

·   Por que não se discutir o destravamento do auxílio para os educadores que estão sendo formados pelo programa Plataforma Freire, que é necessário haja vista a despesa dos mesmos para deslocamento, estadia e alimentação? – É muito difícil sentir-se valorizado numa via de doação sem recepção.

·    Por que não avivarmos a discussão e celeridade acerca da eleição para gestores escolares já enunciada na Lei Orgânica Municipal desde 1990 e contemplada no texto da Lei 08/2011 (Plano de Cargos, Carreira e Remuneração do Magistério Público Municipal)? – Governos que pensem numa Gestão em Rede com fundamento holístico, buscam desvincular-se da política de donativos de cunho clientelista e patrimonialista e almejam descentralizar o processo gerencial. Sejamos este governo!

Poderíamos passar horas e até dias a discutir o que temos, o que queremos e o que é viável, porém não se almeja o desvio do foco das atenções que esta epístola objetiva e assim restrinjamos o que aqui se pretende por esta missiva.

Onde há fumaça, sinaliza-se incêndio e neste caso a coivara é imensa. Mais de 400 professores citados no objeto de uma sindicância da Secretaria de Educação deste Município é o objeto de motivação aqui delineado. Sindicância esta feita à revelia do conhecimento das partes envolvidas, ferindo o princípio da PUBLICIDADE, sinalizando a possibilidade de subtrair enquadramentos (alteração de carga horária de 20 para 40h), regularizações e remoções.

Fica um questionamento: se há reivindicadores que merecidamente sinalizam o sentimento de injustiça por não terem sidos contemplados com estes benefícios e, se estes reivindicadores representam apenas 6 pessoas cujas todas considero merecedoras, diga-se de passagem, por que não buscar uma alternativa para contemplá-los ao invés de num profundo contrassenso sinalizar o comprometimento vital dos demais envolvidos? Por que não então se promover a celeridade no processo de municipalização das 3 escolas de ensino que passarão da competência do estado para Campo Formoso? Tendo em vista serem escolas das séries finais do Ensino Fundamental, o que por turma já comtempla quase totalmente a necessidade de aulas de um professor de 40 horas já resolveria o problema com grandes sobras de vagas.

Robin Hood está vivo? Está equivocado? Justiça Classista se faz tirando os direitos de uns em proveito de outros ou promovendo a extensão destes a todos que assim os merecerem? Caso esteja errado preciso rever os meus conceitos de classismo, cidadania e política educacional.

É preciso sairmos do plano verbal das falácias, do propagandismo, dos vazios, do documentalismo (letra morta) e da política de opressão e papel.

Caso contrário, insisto em dizer, configurar-se-á um movimento que transita entre o retrocesso e a paralisia da nossa carreira...

Volto também a dizer que direito classista tem que ser cláusula pétrea no sentido de não redutivismo e a carreira de professor tem que ser mais bem respeitada.

Atos deletérios ou redutivistas para o professor são também atos suicidas por parte de quem se interessa plenamente pela educação, se este for o caso, e homicidas para com o retorno social.

A título de registro e ao contrário do que se vem propagando à boca miúda, direitos que ferem em redução para alguns, mas que em letra de lei possam ser estendidos a todos, o que não é o caso em tese, não podem ser tomados enquanto direitos individuais, haja vista a possibilidade da extensão a maiores contingentes.

Neste cenário é necessário desvincularmos de pseudo-projeções de poder, de atitudes narcisistas, pois tudo e todos passam e o que nos resta enquanto patrimônio profissional é a nossa CARREIRA.

CONHECIMENTO é um elemento de suma importância e não deve ser objeto narcisista, ostentador de vaidade e sectarismos alienantes. Acima deste está a SABEDORIA. Conhecimento é matéria-bruta, arma de alto poder destrutivo na mão de quem dele faz mau uso. Sabedoria é matéria aperfeiçoada. Convertamos conhecimento em sabedoria, em primazia do crescimento classista.

A materialização dos anseios desta classe não deve ser moldada pelo alienante estigma da nulidade da própria classe num processo auto-predatório de canibalismo social massificado.

“Quem sabe faz a hora e não espera acontecer.” Façamos a nossa hora sem os canhões, sem a falácia, sem as generalizações... Plantemos flores...

 Fica a reflexão, as perspectivas e o anseio de extinção da vulnerabilidade cidadã...


Campo Formoso, Bahia, Terra das Esmeraldas, das Grutas, do Sisal, dos Minérios e, quiçá, da Emancipação do Magistério, 10 de Maio de 2013.


Atenciosamente,









Prof. Adriano Pereira.
1 Professor da Rede Municipal de Ensino de Campo Formoso desde 2002.


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