quarta-feira, 15 de maio de 2013

CASA GRANDE & SENZALA: Reflexões acerca do exercício da proximidade e/ou alcance do oprimido ao exercício do “poder” numa perspectiva de projeções, possibilidades e realizações.


Por Adriano Pereira1


O que faz O Senzala na condição de Casa Grande: dilatar o fosso social ou tentar construir a melhoria em primazia de sua condição original? Intencionalidades, Projeções, Ideologias, Perspectivas e Possibilidades...


Ontem estive na senzala cuja, juntamente aos meus fraternos congêneres construí com meus esforços, idéias e projetos. Vivia ali tranquilo, pacato, parado... Até que um dia convidado a transitar minha vida na divisa entre o meu habitat e a oposta e imponente Casa Grande passei a ter uma dicotômica e projetiva vivência e convivência.

Por lá passava da aurora ao crepúsculo convivendo com o senhorio. Projetava-me naquele universo sociocultural elitizado, mesmo na condição temporária e meramente de companhia e subserviência em labores servis.

Neste novo patamar de minha hetero-vivência (vida alheia/para os outros), reprojetei-me numa também heteroessência (essência alheia). Alheio a mim, passei a ser contemplativo da vida de senhorio. Adentrei-me nesta vida e dela delineei-me integrante, embora dela não gozasse em autonomia e participação ativa. Sequer fui proprietário das benesses que dela decorrem...

Nas sendas crepusculares do meu pensar, retomava-me senzala. Filho da senzala, nela estabelecido já não mais dela assemelhava-me. Uma vez no senhorio, maquilei-me senhorio.

A essência torturava-me no encontro com minhas limitações, sem perceber que na companhia do senhorio nada mais fazia que consolidar o fosso divisor entre Casa Grande e Senzala.

Agora de nova indumentária, maquilado no entorno social verticalmente privilegiado, às más-fases da minha velha essência, por minha parte, resta o abandono em primazia do exímio gozo das benesses que por mim são avistadas. Estou com os senhores. Reprojetei-me senhor...

            Tempos bons, mas tempos de efemeridades, passagens, duração limitada e o regresso ao habitat natural fora inevitável... Estou o que sempre fui e que realmente sou, embora tenha distanciado periodicamente: cativo, senzala...

            Em parcial e também avessa paráfrase à ideia enunciada em conhecida música brasileira interpretada com grande êxito pela cantora Elba Ramalho, estava eu de volta pro meu (des) aconchego, não portando na mala sequer um resquício saudoso. Saudoso estava apenas de minhas passagens projetivas pela outrora instantânea e oportuna pompa...

            Descaracterizado e distante de mim não me essencializei, abdiquei aos meus pares, fui exímio opressor dos meus congêneres e fraternos em atitudes e apoios, em falas e em silêncios. Desfraternizei-me...

            Recaracterizado pós-demaquilagem, volto a peculiarizar-me às minhas raízes. Regresso matéria-prima, custosa a agregar valores por mim outrora renunciados em apriorismo aos desígnios do elitismo. Mais sofrido que reconstituir-me fora assumir embora silenciosamente a minha colaborativa responsabilização por ter sido fiel tributário da dilatação de minha condição de oprimido. Não fui classe, fraternidade, união e amor... Homicida em causa própria: suicida... Fui corda e chicote...

 No pseudo-período de senhorio, pelos devaneios e insanidades de minhas também pseudo-projeções fui veladamente colaborador do cativeiro social que assola meu ambiente original e hodierno com máculas que podem se estender por tempos distantes.

Não cativante fui sempre míope cativo. Projetor e construtor de alçapões...

Na vida as alienações são processos, quando não intencionais, tardios de percepção. E o pior: o alienado é alienante. Multiplica seu caractere.

 Os desvelamentos são demorados, haja vista a forma velada como nos são postos os véus. Desalienado e demaquilado destoei-me do véu que cobria minha face e percebi o quão alheio a mim foram meus atos. Fui legitimamente opressor de mim e cativo do senhorio.

Ontem na Casa Grande, hoje na Senzala, percebo explicitamente que embora distante fui exímio arquiteto mais desta que daquela. Arquiteto de ruínas... Redator de anacolutos...

Ali tudo fui, exceto um legítimo senhor de verdade. Fui mucama que alimenta e revigora. Revigorei e alimentei a opressão dos meus originais e fraternos congêneres, simples e unicamente pelo incondicional apoio que relegava ao senhorio em proveito de pequenos confortos que não ultrapassavam os limites do exíguo prazer de com os grandes estar, contribuindo para expandir a sustentabilidade corruptiva e predatória.

Fui também capataz – revolto comigo mesmo no plano essencial tomei a bandeira de detentor de armas e tenaz defensor das “causas superiores” na defesa do contrassenso da luta em prol da caça a mim mesmo, fui míope autopredatório.

 Enquanto capitão-do-mato – Na condição de caçador que também é caça, vilão vitimado, fui um grande caçador de recompensas e predador da própria espécie, num ato de autodelação e canibalismo fui delator e opressor dos meus pares.

Levei a demagogia ao plano da ação. Fui à luta! Encarei-os (congêneres) de perto, mirei-os e descarreguei-lhes pesada artilharia em prol da “civilidade” e da “ordem natural da sociedade e do poder estabelecido.” Blindei meu senhorio, cobri-lhe com uma redoma. Fui massa e massificador! Síntese de antíteses, agente de contradições...

A compulsoriedade da recaracterização em meu retorno a mim mesmo, desnudou-me da minha condição opressiva.

Toda posse daquilo que não nos é pertencente e/ou natural constitui um furto ou no mínimo um alheamento. Assim voltei a mim demaquilado, despido, descalço e recalcei-me com a dura sandália da humildade. Pós – despido, retomei meu indumento original e mantive a demaquilagem.

Demaquilado, descobri tempos depois que sempre fui cativo não somente do senhorio, mas de minha história, de minha essência e de minha abalada e escassa remanescente fraternidade...

Chicote na mão, corda na outra, fora cativo alforriado do senhorio. Ainda cativo de meus ideais e de meus desígnios busco o senhorio de mim.

Qualquer semelhança e pertinência é fruto de mera coincidência...


Campo Formoso, Bahia, Terra das Esmeraldas, das Grutas, do Sisal, dos Minérios e, quiçá, do desvinculamento do exacerbado patrimonialismo e da autopredação social e classista, 15 de Maio de 2013.


Atenciosamente,

            






           
Prof. Adriano Pereira.
1 Professor da Rede Municipal de Ensino de Campo Formoso desde 2002.

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